Amamentação em TANDEM

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Crédito: https://www.facebook.com/AlbanoGioiaArt?fref=ts

Esse é mais um dos pontos em que obstetras pensam de forma diferente que os pediatras e que pediatras pensam diferente de outros pediatras. Vamos analisar as questões e entender as razões da dificuldade de um consenso nessa situação.

A recomendação que todos conhecem (ou pelo menos deveriam conhecer)

OMS, Ministério da Saúde, SBP recomendam e divulgam, já há tempo suficiente e cada vez com mais comprovações de benefícios:

– ALEITAMENTO MATERNO DESDE A PRIMEIRA HORA DE VIDA;

– ALEITAMENTO MATERNO EXCLUSIVO E EM LIVRE-DEMANDA ATÉ O 6º MÊS;

– ALEITAMENTO MATERNO ESTENDIDO ATÉ 2 ANOS OU MAIS.

Estudos comprovam vantagens para as mães (redução de volume uterino, prevenção de câncer de mama, maior chance de diminuição de peso, dentre outros), para os bebês (formação de flora intestinal favorável, prevenção de obesidade infantil, de alergia alimentar, de doenças respiratórias e infecciosas, entre outras) e para o vínculo (maior início de AME, maior duração do AM, crianças com menos cólicas, mais seguras, entre outras questões).

Mesmo assim, o que conseguimos segundo as últimas estatísticas ainda é:

– Prevalência de AME de 54 dias;

– AME no 6º mês – 41%;

– Mediana de AM – 11 meses e meio.

Segundo estudos, muitos são os fatores responsáveis por esses índices tão aquém das recomendações:

– Falta de orientação no pré-natal;

– Início de oferta de fórmula infantil e em mamadeira já na maternidade;

– Falta de orientação dos pediatras durante as consultas de puericultura;

– Licença-maternidade de 180 dias não é lei com volta ao trabalho com 120 dias;

– Falta de condições de retirada e armazenamento de leite materno no trabalho;

– Creches que NÃO ACEITAM receber leite materno das mães para os seus filhos;

– Falta de estímulo da mídia, do governo, da sociedade de forma geral ao AM.

E essa lista é imensa, muito maior, mas acho que já é possível perceber o panorama do aleitamento materno no Brasil.

Segunda gravidez: suspender a amamentação do primeiro filho?

Essa é uma questão que divide os profissionais e inclusive os pais. A idade do primeiro filho no início da gestação é um dado levado em conta pelos pais. Se for um lactente (até um ano de idade) a dúvida é muito maior. Se o bebê já tem um ano ou mais, a opção mais “lógica” é desmamar para que ele não se sinta excluído antes de o irmãozinho mais novo nascer.

Quer dizer que quando se suspende o AM na gestação será mais “fácil” e “menos sofrido” para esse bebê? Quem disse isso? De onde se tirou essa ideia?

A maioria dos obstetras se coloca claramente favorável à suspensão do AM assim que se faz o diagnóstico da gravidez. Algumas justificativas para essa atitude passam pela dinâmica endocrinológica desse período e dois são os principais “hormônios responsáveis” para essa decisão: OCITOCINA e PROLACTINA.

OCITOCINA 

Esse é um hormônio que é liberado através da sucção da mama e que pode promover contrações uterinas (fator interessante no pós-parto para a regressão do útero ao seu tamanho normal de forma mais rápida e natural).

Desde o início da gestação, o útero apresenta contrações imperceptíveis e pesquisas sugerem que até a 24ª semana de gestação o útero não é sensível à estimulação da ocitocina.

As preocupações em relação a abortamento por conta da amamentação durante a gestação não têm uma fundamentação a não ser em algumas poucas situações. 16 a 30% das gestações podem cursar com abortamentos espontâneos, assim, algumas vezes, eles podem ocorrer durante a fase de aleitamento, sem que essa seja a causa.

PROLACTINA 

É um hormônio produzido pela hipófise e que aumenta muito, fisiologicamente, na gestação (10 a 20 vezes seu valor normal) para favorecer a produção de leite (estrógeno e progesterona são os hormônios responsáveis pela não saída do leite estimulado pela prolactina).

Além disso, enquanto a mãe amamenta esse hormônio permanece em nível elevado.

Segundo publicações , “O desenvolvimento mamário inicial ocorre sob a influência tanto dos estrogênios (sistema ductal) quanto dos progestagênios (sistema lobuloalveolar). As principais ações da prolactina sobre o tecido mamário são a lactogênese e a lactopoese, e, durante a gestação, a elevação das taxas de prolactina sérica é progressiva até o termo, podendo atingir níveis 10 a 20 vezes superiores aos encontrados na mulher não-grávida. Entretanto, seu efeito na gravidez está diretamente relacionado ao aumento das taxas de estrogênio, uma vez que este irá determinar hipertrofia e hiperplasia dos lactótrofos”.

Quando o bebê nasce e caem os níveis de estrogênio e progesterona, pode ocorrer a saída do leite pelos brotos mamários do bebê (conhecido como “leite de bruxa”), pelo estímulo da prolactina, de forma transitória (2 a 3 semanas). Não se deve apertar o broto mamário dos bebês para saída desse leite sob o risco de infecção importante. Sempre converse com o pediatra nessa situação.

Muitas mães já considera difícil a ideia de amamentar gêmeos. Participei de grupos nos quais mães de gemelares faziam AME até o 6º mês. E não foram poucas não. Difícil? Sim. Mas absolutamente possível e recomendável.

Mas e quando a mãe de um bebê engravida? E se esse bebê ainda estiver em aleitamento materno, mesmo que não exclusivo? Dá para amamentar um filho enquanto grávida de outro? E depois, é possível continuar a amamentar dois filhos, de idades diferentes?

Você já ouviu falar de amamentação em TANDEM? Essa é uma prática comum em outras culturas e que está começando a ser mais usada por aqui.

Definição de TANDEM:

Dicionário Aurélio e Caldas Aulete digital:

  1. m.

Velocípede com dois selins e outros tantos pares de pedais para ser montado e movido por duas pessoas.

Cabriolé descoberto, puxado por dois cavalos atrelados um atrás do outro.

Conjunto formado por duas unidades, geralmente uma atrás da outra.

adj. 2 g.

Que é formado por duas unidades, duas partes ou dois lugares, geralmente um atrás do outro.

Já a expressão em Tandem (in Tandem) é referida no Dicionário de Cambridge:

at the same time (ao mesmo tempo) – The heart and lungs will be transplanted in tandem (o coração e os pulmões serão transplantados ao mesmo tempo).

Assim é a ideia da amamentação em Tandem. Amamentar dois bebês que não sejam gêmeos, de idades diferentes, um deles desde recém-nascido, mantendo o aleitamento para o mais velho. Como os hábitos de mamada de cada bebê podem ser diferentes (horários, necessidades nutricionais), isso pode significar amamentar cada um de acordo com suas demandas e seus horários.

Entre o segundo e o terceiro trimestres de gestação, como mais uma das caraterísticas únicas do leite materno, inicia-se novamente a produção de colostro e em grande parte das vezes isso não provoca o desmame da criança maior. Outros bebês podem desmamar pela mudança do paladar ou da quantidade de oferta.

A ideia de amamentar em TANDEM pode ser aplicada também à mãe que amamenta um seu bebê enquanto gestante de outro. Ela está nutrindo dois bebês.

Mas nem essa decisão e nem a prática são simples ou fáceis.  Mas uma compensação temporária com atenção e cuidados extra podem ser interessantes a todos, para demonstrar eu, apesar da “perda do seio e do leite materno” não há perda de amor.

Além disso, há muitas questões a se considerar:

– O histórico médico, os níveis de conforto físico e emocional da mãe;

– A idade dos filhos e suas necessidades de aleitamento;

– Se há algum comprometimento de risco na gestação por conta da amamentação;

– Aumento da sensibilidade dos mamilos (pelas mudanças hormonais) que pode trazer dor, desconforto (uma das principais razões de desmame na gestação).

Assim, se não há nenhuma contraindicação absoluta para suspender o aleitamento durante a gestação, a decisão é sempre dos pais. E as razões para suspender o aleitamento na gestação são realmente muito, muito raras.

Vale relembrar que o aleitamento não conta, apenas, como fator nutricional. A satisfação oral, proximidade e vínculo com a mãe, contato físico são fatores que acompanham mãe e bebê durante a fase de amamentação.

Como a criança maior está recebendo outro tipo de alimentos que não o leite materno, o bebê tem a prioridade na mamada, garantindo que ele receba o colostro. Muitas vezes, o fato de a mãe amamentar os dois filhos ao mesmo tempo diminui os ciúmes do filho mais velho e traz uma proximidade maior entre os irmãos. A produção de leite se adequa às necessidades dos dois filhos com o tempo.

Muitas vezes, mesmo que a criança maior tenha desmamado, ao se defrontar com o bebê mamando, pode reaparecer a curiosidade e o interesse em reexperimentar o seio. Geralmente uma conversa explicando que ele já é grandinho e pode se alimentar de outro tipo de comida é suficiente. Mas se ele insistir, não há mal em deixa-lo tentar. O gosto diferente e o tempo que ele ficou sem mamar costumam desagradar a criança.

Mas não é raro que a mãe tenha sentimentos conflitantes em amamentar na gestação ou em tandem após o parto. E nessa hora ela pode contar com a ajuda da família, o apoio do pediatra para que se defina o que é melhor para todos.

Se a opção for desmamar, isso pode ser feito de forma gradual, amamentando o bebê enquanto o filho maior está entretido com outras atividades e substituindo a mamada por lanches saudáveis, com a ajuda da família (especialmente do pai).

Como a criança maior está recebendo outro tipo de alimentos que não o leite materno, o bebê tem a prioridade na mamada, garantindo que ele receba o colostro.

Concluindo

– Amamentação em TANDEM é a prática de manter aleitamento de seu bebê mesmo na gestação ou crianças de idades diferentes (recém-nascido e filho maior) enquanto for desejável.

– São poucas as contraindicações absolutas para suspender o aleitamento durante a gestação. Isso não é, de forma alguma, regra geral. As questões hormonais de ocitocina e prolactina são fisiológicas, ou seja, normais e não indicam necessidade de desmame.

– Em não havendo nenhuma causa clínica tanto a prática de amamentação em TANDEM como o desmame da criança maior durante a gestação ou após o nascimento do bebê mais novo é uma decisão dos pais, que pode ser embasada nas informações profissionais dos obstetras e pediatras.

– A prática do TANDEM não é simples, não é hábito cultural entre nós, mas precisa ser de conhecimento de todos (pais, profissionais de saúde) e é, sem dúvida, um fator a mais para a confirmação da importância do aleitamento materno e da possibilidade do aumento de sua taxa, o que favorece a saúde da mãe e de seu bebê.

– A fase do colostro é de 3 a 7 dias. Normalmente depois disso vem o leite maduro. Na fase em que a mãe está com o recém-nascido na maternidade, é muito difícil amamentar o outro filho. Não é raro o desmame nessa fase porque os familiares acabam insistindo na mamadeira e em outro leite. A mãe pode retirar seu leite para deixar para seu filho usar em copinho em casa e retomar a amamentação quando voltar para casa.

A decisão final sobre o aleitamento em TANDEM é dos pais.

Fontes

– Artigo especial – Dogmas da Prolactina: a necessidade de rever conceitos – publicado em 04/07/2014 –

Fisiologia da Prolactina – José Maria Soares Junior, Mônica Gadelha

– Wikipedia – Breastfeeding – Tandem nursing

La Leche League International

Nascer no Brasil – Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento

Escrito por Dr. Moises Chencinsk

FONTE: http://mamaquetefazbem.zip.net/

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Uma resposta »

  1. Estou grávida de 12 semanas e minha filha de 1 ano e 5/meses ainda mama. E vai continuar enquanto ela quiser e se eu continuar me sentido bem como estou …

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