A mulher que “teme ser adulta” e mergulha no universo materno/infantil é para se proteger?

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Se proteger do quê?

A Ambiguidade da Maternidade

A “adultização materna” é um estágio da vida da mulher que está ligada à comportamentos, percepções e constructos de mundo muito peculiares, cercado de uma especificidade de significados. Quando nos tornamos mães, nos confrontamos com a realidade de ter agora em nossos braços um bebê que depende dos nossos cuidados, do nosso corpo e da nossa própria vida. Independentemente da idade, nunca estamos totalmente prontas para este momento, pois é um universo novo e por mais que saibamos a respeito da maternidade por meio de livros e de vivenciar diversas maternidades à nossa volta, este bebê em nosso braços é na verdade, um completo desconhecido para nós.

A maternidade é uma ação muito feminina e independente. Tanto o nosso corpo como o nosso impulso nato, mesmo em situações onde a partilha dos cuidados e responsabilidade recaia exclusivamente sobre a mulher, a mãe para o bebê, será a figura principal da vida da sua vida, salvo exceções. O maior enfrentamento, portanto, é o tipo de expectativas que tanto a sua família como a sociedade esperam desta nova mãe que nasce.

Encarada como uma mulher adulta, deverá ter maturidade e habilidades suficientes para cuidar desta nova criança, que se embute nelas, expectativas pessoais de cada personagem desta história. Avós, parentes, amigos e o cônjuge constroem um verdadeiro mosaico de idealizações de sentimentos e desejos que depositam neste novo bebê que chega: todos, neste momento, colocam em prática seus próprios saberes e experiências para “auxiliar” esta nova mãe nos cuidados e na sua educação. Pouco se reflete sobre as profundas mudanças hormonais e emocionais que esta mulher incorpora à partir deste momento e surgem, nesta grande rede de significados, conceitos que podem ser positivos e extremamente negativos sobre quem é esta mãe que todos esperam que ela seja, e, se de fato, irá cumprir o seu papel com excelência.

O desafio de formar um novo lar, de construir um relacionamento com outra pessoa e agora cuidar de um novo bebê, pode significar um confronto profundo com as suas reais convicções e principalmente, sobre a certeza de suas escolhas. Saindo rapidamente do papel de filha, esta mulher encara seus múltiplos papéis da mulher adulta: mãe, mulher, esposa e profissional. Ainda recai sobre ela a maioria das responsabilidades da vida adulta e espera-se dela, a mesma excelência, em todos os sentidos.

Esta mulher mãe está na constante posição de “observada”:

– Se o bebê chora, há algo de errado com o seu leite e talvez, ela seja incapaz de satisfazê-lo e primordialmente, de fazê-lo cessar o choro;

– Se os afazeres domésticos se acumulam, ela não consegue conciliar as duas coisas e é vista como alguém sem prioridades e organização de tempo;

– Se dedica exclusivamente ao bebê, não tem habilidade para equilibrar as funções de filha, amiga e esposa;

– Se opta por ficar em casa cuidando do bebê, sobrecarrega o seu parceiro nas funções financeiras da família e provavelmente está abandonando uma carreira brilhante, da qual dedicou anos de preparação;

– Se volta ao trabalho e terceiriza os cuidados do seu bebê, não se conectou completamente com a sua maternidade.

Neste momento, se instala a chamada “culpa materna”.  Mas não gosto de chamar este momento de culpa, mas de uma necessidade de regressar ao passado, à menina que esta mulher foi um dia. Um desejo de regressar ao lugar de paz; aquele era o momento e a situação “segura” e dentro do controle de suas emoções e das expectativas deste momento de sua vida. Era uma jovem menina cuidada pelos seus pais, tinha a atenção, o carinho e cuidado deles; as expectativas em torno dela eram positivas, e sobremaneira esperançosas. O futuro idealizado para ela era o mais promissor possível: uma boa formação, uma boa carreira, um bom casamento e por último, uma boa maternidade. Interessante que o momento idealizado da “maternidade” parece, na maioria das vezes, que sempre chega antecipadamente, imaturamente; talvez porque nem esta mulher e nem as pessoas do seu convívio estão de fato preparadas para esta mudança tão significativa em sua vida.

O resultado, são conflitos e mais conflitos que desafiam à todo o momento a maturidade desta mulher, e a ideia de que ela está finalmente pronta para ser mãe. Por algum motivo, esta insegurança passa a ser um divisor de águas, onde, quando esta mãe está finalmente com o seu bebê nos braços, nasce toda a sorte de especulações se ela realmente vai desempenhar a sua maternidade da forma como “todos” esperam. À sua volta, por um breve momento para algumas, esta mulher experimenta (talvez pela primeira vez) o sentimento de vulnerabilidade.

Diversas questões rondam este momento crucial, em especial, no primeiro trimestre de vida do bebê. Muitas vezes, esta mãe perde a batalha para o choro sem consolo e, amparada apenas pela exaustão, a sensação nítida que ela têm é de completo fracasso. Não obstante, o seu entorno de alguma forma fortalece esta sensação e ela atravessa este momento como uma dos mais desafiadores de toda a sua vida.

O tempo passa. E esta mulher, aos poucos, começa a compreender o universo materno, suas peculiaridades e singularidade. Socialmente se encontra em outras experiências maternas semelhantes à sua, forma um conceito através de buscas pelo conhecimento e finalmente, se conecta com o seu bebê (ou não). Neste momento, ela é quase capaz de tocar a sua própria alma e encontra, no corpinho frágil e apaixonante deste bebê, o mesmo porto seguro do qual ela estava desejosa de voltar.

Ela mergulha! Vive todas as conquistas, aquisições, espaços e tempo do universo infantil de forma intensa. Os vivencia em um grau de intensidade tal, que aquele universo passa a ser o seu agora: os lugares para bebês, os produtos para bebês… um quarto na perspectiva Montessoriana passa a ser a grande realização desta mãe, da mesma forma que uma simples aquisição de um brinquedo. Tudo é vivido com muita intensidade, todos os momentos deste bebê merecem ser registrados, compartilhados em uma rede social, a mãe respira este mundo. Muitas vezes este envolvimento é tal, que a mãe incorpora também uma característica própria do ser mãe: roupas e sapatos funcionais, alimentação saudável e muitas vezes, ausência de uma vaidade feminina. Por hora, toda a cobrança para que este mulher seja de fato excelente, neste momento, a deixa “segura” neste lugar.

Talvez a mulher permaneça nele porque teme continuar sendo cobrada. Ela com seu bebê estão bem agora, e pensar em toda o processo de volta ao trabalho, de conquista do seu espaço com sucesso, de enfrentar a competitividade, de bater metas e da necessidade de uma constante especialização na área que escolheu lá atrás como carreira, para algumas mulheres, postergar todos estes desafios de alguma forma faz bem. Ela teme ser adulta. E não há nada de errado com isso.

Para algumas, que tiveram histórias de infância onde as necessidades de afeto, atenção e vínculo com a sua mãe foram de alguma forma fragmentadas, a maternidade é um excelente momento de reparação. Muitas mulheres se redescobrem neste processo, e neste mergulho profundo de alma, encontram-se a si mesmas. Outras, mergulham tão profundamente, que transmitem toda a ansiedade e toda a carência para este bebê. Neste momento, o nome “culpa” passa a ter um significado concreto. Esta é a era da ansiedade e o desafio de internalizar a maternidade de forma tranquila e boa para mãe e bebê passa a ser quase inalcançável.

Por mais que esta mulher amadureça, que se prepare emocional e financeiramente, o momento da maternidade sempre será um momento de rupturas, de reavaliar, de se reconectar consigo mesma. A grande beleza da maternidade, no meu entendimento, e para as mulheres que passaram pela experiência de se tornarem mães, é a possibilidade de ir e voltar destes espaços abstratos e concretos da sua própria constituição como ser único neste mundo.

Após este momento de entrega e de satisfazer as necessidades pontuais de uma criança, chega o momento desta mãe se reconhecer como um ser individualizado e, de mãos dadas com o seu eu, finalmente recomeça a trilhar o seu caminho. Caminho este, de realizações, de conquistas e de auto satisfação. Não tenho dúvidas de que após esta experiência tão visceral, esta mulher finalmente deseje ser adulta e parte em busca da sua trajetória pessoal de vivência no mundo. No final de tudo, somos nós mesmas quem estaremos ao nosso lado até o fim.

 

Por Simone De Carvalho

 

 

 

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