Morte no berço

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Quando se espalha a noticia da “morte súbita” de um bebê, o medo ao imprevisível e a falsa afirmação de que essa possibilidade é “aleatória” – quer dizer, que pode acontecer com nosso bebê a qualquer momento – toma conta d

e nós, com a idéia fortuita de que dependerá da sorte ou do azar que tenhamos.

No entanto, as coisas não são assim. A “morte súbita” está mal nomeada. Teríamos que chamá-la “morte no berço” . Para ser más exatos, precisaríamos denominá-la: “morte no berço enquanto o bebê está sozinho”. Não existem bebês saudáveis que morram subitamente no colo de uma pessoa maternante. Discutir se é melhor colocá-los para dormir de barriga para cima ou para baixo é reflexo da assombrosa ignorância que nós, ocidentais, temos sobre o universo dos bebês. A única coisa a ser pesquisada é se elesdormem sozinhos ou se dormem em contato completo e absoluto com outro corpo humano.

Todo filhote de mamífero de qualquer espécie sabe que não pode nem deve ficar sozinho, porque fica exposto aos predadores. O bebê humano sabe exatamente a mesma coisa, por isso usa suas duas principais ferramentas para a sobrevivência: o choro e a sucção. Pois bem, se depois de chorar e chorar e chorar, nenhum adulto aparece para acudi-lo… porque ele “tem que se acostumar a dormir sozinho”, aparecerá a resignação e a dolorosa certeza de saber que está só neste mundo. Logo, em seu afã por ser amado, cobrará a presença e o contato corporal de múltiplas maneiras: adoecendo, chorando en momentos inadequados, ferindo-se, não aumentando de peso, deprimindo-se… até que uma noite… no meio de um profundo silêncio, decide não acordar mais.

O que fazem os homens e as mulheres decentes e bem pensantes? Dizem à mãe que volte a trabalhar logo, que seja forte, que não enfraqueça, que não se renda, que a amamos, que seja valente, que cuide de si mesma, que tenha garra, que lute, que siga em frente.

Enquanto expulsarmos todas as mães do recolhimento e do silêncio da maternidade e enquanto só as reconhecermos nos âmbitos públicos e de sucesso, continuaremos sendo todos responsáveis por cada bebê que decidir partir, farto da solidão, da quietude e do frio.

Laura Gutman

 

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