“Amamentação é uma arte e precisa ser aprendida pela mãe e pelo bebê”

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Por Eneida Bittar, enfermeira especializada em pediatria e aleitamento materno

 

“Amamentação é uma arte e precisa ser aprendida pela mãe e pelo bebê”. Assim Eneida Bittar, enfermeira especializada em pediatria e aleitamento materno da Clínica Medicina da Mulher, define o ato de alimentar o recém-nascido. A especialista explica que a maturidade de sucção do bebê acontece com aproximadamente 34 semanas, porém, alguns nascem com imaturidade nesta função, ou são muito sonolentos nos primeiros dias de vida, o que torna o processo dificultoso para mãe e filho. Eneida dá algumas dicas e esclarece alguns mitos sobre aleitamento materno.

 

O primeiro leite

 

Chamado de colostro, o primeiro leite se forma próximo da 26ª semana gestacional. Ele tem a função de proteger o recém-nascido por ser rico em fatores imunológicos e betacaroteno e tem cor amarelo alaranjado. Representa entre cinco e sete mililitros do total das primeiras mamadas. Entre as 24 e 48 horas seguintes ao parto, a mãe produz o leite de transição, ou seja, com um pouco menos de betacaroteno, de cor semelhante à manteiga, com um volume próximo de 30 mililitros por mamada. Passada essa fase, chega o leite maduro, dividido em duas porções. A primeira, um líquido mais ralo, semelhante à consistência da água de coco, que tem a função de matar a sede e hidratar o bebê. A segunda parte é mais densa, rica em carboidratos e tem a função de fazer a criança ganhar peso, e chega perto de 70 mililitros. Muito se fala do leite empedrado. A especialista esclarece que isso pode acontecer no período de apojadura, ou seja, no período entre 48 a 72 horas após o nascimento, quando o bebê não esvazia a mama por completo ou quando a mãe pula mamada. Durante a apojadura a mãe sente um formigamento e calor intenso, devido ao edema que se forma nos seios onde, além do primeiro leite, se acumula sangue e linfa. A técnica para alívio deste desconforto é massagear os seios com movimentos circulares e esgotar o leite caso o bebê não sugue toda quantidade oferecida. Neste período é importante usar uma concha protetora que auxilia na drenagem do leite. Não usar pads descartáveis que podem soltar fiapos de algodão, neste caso usar fraldas para absorver o leite, e lançar mão de pads em gel para alívio da dor nos mamilos. 

 

A mãe

 

Nos primeiros dias após o nascimento do bebê, é muito comum algumas mães sofrerem uma alteração no comportamento conhecida como baby blue. É como um momento de tristeza, diferente de depressão pós-parto, e que está relacionado com alterações hormonais. A sugestão da especialista é a mãe ir se preparando desde antes do nascimento para se envolver com a amamentação. Como medidas preventivas, é recomendado ter orientação de uma consultora em aleitamento materno ou participar de curso de preparo para o parto. Tomar de cinco a dez minutos de sol por dia nos mamilos ajuda a pele a ficar menos sensível. Além disso, entre 36 a 37 semanas de gestação iniciar o uso de lanolina 100% purificada para uma hiperidratação no mamilo e auréola, diminuindo o risco de lesões. É importante a futura mamãe também observar se tem o mamilo protuso, ou seja, para fora do seio o suficiente para amamentar. Caso não tenha é necessário o uso de uma concha específica para formação do mamilo que pode ser usada durante todo o período gestacional. “A pega incorreta do bebê no peito pode levar a dor durante a amamentação e até mesmo escoriações, fissuras e sangramento”, detalha Eneida. Por isso, o posicionamento adequado da mãe e do bebê é importante. O bebê deve ficar com a barriga voltada para a barriga da mãe e o corpo sempre inclinado. É importante ter uma poltrona confortável, com apoio para coluna cervical, manter os pés elevados durante a mamada e, se puder, contar com o auxílio de uma almofada para amamentação, que deve ser posicionada ao lado da mãe, e não na frente. É importante também intercalar os seios a cada nova sessão que deve ser feita no intervalo de duas ou três horas, sem pular. Se a produção de leite for grande para alimentar bem o bebê e ainda sobre, a mãe pode doar.  A mulher pode utilizar a bomba elétrica para extrair maior volume de leite em menor tempo. Depois disso, basta armazenar o leite em frasco de vidro ou plástico, livre de bisfenol, e esterilizado. Em temperatura ambiente, o leite pode permanecer por até oito horas, três dias na geladeira ou 15 no freezer. O uso de sutiã de sustentação, sem aro, de alças largas e abertura frontal também é recomendado porque mantém a permeabilidade da estrutura da glândula mamária.

 

A amamentação e cuidados com o bebê tornam os primeiros dias exaustivos, por isso é fundamental que a mãe repouse. É também de extrema importância que a mãe cuide da alimentação e hidratação, ingerindo de três a quatro litros de líquidos, sucos, água e chás de frutas, camomila ou cidreira. “Nada é proibido durante a amamentação, mas recomendamos que a mãe evite cafés e chás preto, verde e branco em razão da cafeína que estimula o sistema nervoso central do bebê”, explica Eneida. A sugestão é também que a mãe evite frituras, açúcar branco, refrigerante, chocolate, embutidos e temperos fortes por serem alimentos que podem estimular cólicas no bebê nesta fase que o intestino ainda está em um processo de adaptação da nova alimentação. A mãe também não deve aumentar a quantidade de leite que está habituada a tomar para não elevar a quantidade de lactose no organismo. E, diferente do que muita mulher pensa, as refeições da mãe devem ser ricas em carboidrato e proteína uma vez que a cada mamada se perde de 600 a 800 calorias. Por isso, a função é fundamental para reestabelecer a forma anterior à gravidez. “A amamentação é um exercício e a mãe não deve fazer dieta hipocalórica neste período”, alerta a especialista. Nos intervalos das refeições principais deve-se fazer lanches para compensar a perda de energia e se preparar para a próxima sessão de aleitamento.

 

O bebê

 

Todo bebê nasce com uma reserva de peso de aproximadamente 10% que é consumida durante os dois primeiros dias de vida enquanto mãe e recém-nascido se adaptam a amamentação. Passada essa fase, o bebê precisa parar de perder peso e passar a ganhar gradativamente até atingir o esperado, cerca de 30 gramas por dia. Se nos dois primeiros dias de vida ele não acordar naturalmente nos intervalos das mamadas, a sugestão de Eneida é tirar um pouco de leite e oferecer numa colherzinha para estimular a produção e auxiliar a despertar o bebê. Outra técnica é massagear com movimentos circular a lateral da coluna que estimula o reflexo de espreguiçar, sempre que o bebê estiver adormecendo no peito, acordando a criança na hora certa. “Muita gente tira a roupa do bebê para ele acordar, mas é muito desconfortável e pode estressá-lo”, comenta a enfermeira. São necessários de 20 a 40 minutos para uma mamada completa e conforme o bebê cresce e adquire coordenação para respirar, sugar e deglutir o leite, melhor é a qualidade da amamentação e este tempo tende a diminuir.

 

Uma das formas da mãe saber se o filho está bem alimentado é o intervalo de sono de pelo menos uma hora e meia. O volume de urina e frequência das fezes, a chamada de balança fisiológica da mãe, também é outro indicativo de que está tudo bem. Muitas mães acreditam que o bebê tem que arrotar após mamar e se cansam de andar pela casa aguardando este momento. O fato é que se a mamada foi bem coordenada, significa que o bebê não engoliu ar e nem sempre vai arrotar. Cerca de cinco minutos são suficientes para manter a criança no colo antes de prepará-la para dormir. Basta colocá-lo de barriga para cima e cabecinha de lado com a cabeceira do berço ou carrinho levemente inclinada para facilitar o esvaziamento do estômago.

 

O pai

 

O pai não fica de fora na hora de amamentar e tem participação importante neste processo. A presença dele na hora da amamentação deve ser no sentido de auxiliar a mãe ajudando a posicioná-la da melhor forma ou levar um suco e um pequeno lanche durante aquele momento. Ao fim da sessão, muitas mães se sentem exauridas e o pai pode fazer o bebê arrotar ou trocar a fralda enquanto a mãe se recupera. “Nos nossos cursos vemos cada vez mais a participação do pai em todo processo antes e depois da gestação, o que é fundamental”, comenta Eneida. O pai também deve contribuir com o reestabelecimento emocional da mãe, por exemplo, cuidado da criança para mãe poder sair para fazer as unhas, cortar o cabelo, ou seja, ajudá-la a se sentir bem. Saidinhas curtas, para jantar, por exemplo, também podem ser incentivadas pelo pai para retomar a vida de casal. “A chegada de um bebê é um momento de aproximação e não isolamento”, complementa a enfermeira.

 

Todas essas dicas e técnicas são ministradas na Clínica Medicina da Mulher pela enfermeira Eneida Bittar no curso de preparação para o parto e aleitamento. Eneida é graduada em Enfermagem e especialista em pediatria e puericultura pela Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp. Seu currículo conta ainda com o título de consultora e educadora em aleitamento materno pela Universidade da Califórnia e é membro da ILCA International Lactator Consultant Association dos Estados Unidos.

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