LEITE MATERNO: O ALIMENTO QUE JÁ VEM COMPLETO, NA MELHOR EMBALAGEM E PRONTO PARA O CONSUMO!

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Por Camila Castellan

leite materno alimento completo

A mulher prática e moderna tem se perguntado: “Por que amamentar?” Pergunta esta que está relacionada à falta de tempo e supervalorização das dificuldades iniciais que podem advir com o aleitamento.

A industrialização e a urbanização crescentes implantaram novas rotinas e hábitos na alimentação, atingindo mães e filhos. No século XX, a indústria moderna introduziu o leite em pó como alternativa para o leite materno queatravés de intensas campanhas de incentivo, foi conquistando o mercado com sua facilidade e praticidade. Este fatoassociado a fatores sociais, culturais ou crenças, além do medo em relação à estética do seio, ocasionaram a falta de estímulo à prática da amamentação.

Podemos citar como fator social o aumento do número de mães trabalhando fora de casa; como fatores culturais, a falta de informações sobre os benefícios da amamentação, assim como as causas referidas onde a mãe diz: “a criança não quis mais”, “tenho pouco leite”; e ainda crenças, como “meu leite é fraco”.

A importância da amamentação natural tem sido abordada, principalmente sob o ponto de vista nutricional, imunológico e psicossocial; portanto, é um assunto de interesse multiprofissional envolvendo dentistas, médicos, fonoaudiólogos, enfermeiros, nutricionistas e psicólogos.

O leite materno é considerado o melhor alimento para o lactente, fornecendo proteção contra doenças agudas e crônicas, além de contribuir para o desenvolvimento psicológico e emocional do recém-nascido. Estudos também indicam que a curta duração do aleitamento materno pode levar a aumento da morbimortalidade atribuída a doenças infecciosas, isso pode estar associado ao fato de que as crianças que consomem outros alimentos apresentam maior risco de contaminação por patógenos. Organizações internacionais corroboram com a recomendação de que a amamentação exclusiva deve ser praticada do nascimento aos seis meses de vida da criança, pois supre todas as necessidades nutricionais da criança e mantém seu crescimento dentro da normalidade.

Apesar da constante divulgação de informações, muitas mães ainda apresentam diversas dúvidas sobre aspectos relacionados à amamentação e, por isso, conversamos com a Nutricionista Luara Bellinghausen Almeida, Especialista em Nutrição Materno-Infantil (UNIFESP), Mestre e Doutoranda em Nutrição em Saúde Pública (USP), e professora universitária que, de uma maneira muito simples e direta, esclareceu as dúvidas mais frequentes das mães.

 leite a mesa

1) Quanto tempo após o nascimento do bebê o leite começa a vir?

A descida do leite, ou apojadura, ocorre geralmente no terceiro dia após o nascimento do bebê. Este tempo é variável entre as mulheres, podendo ser um pouco mais rápido ou um pouco mais demorado. Nos primeiros dias é produzido e secretado o colostro, um líquido de cor amarelada, que é rico em vitaminas, proteínas e anticorpos. O colostro ocorre em pequena quantidade, muitas vezes a mãe nem percebe a sua produção, mas é bastante importante para o sistema imunológico do bebê, é a primeira defesa que ele recebe. Por volta do 5o. dia a mamãe passa a produzir o leite de transição, até que por volta do 10o. dia ela já produz o chamado leite maduro, suprindo todas as necessidades do recém nascido. Este processo de transformação do leite materno adéqua-se ao amadurecimento gradual do trato gastrointestinal do bebê, que vai melhorando a sua capacidade de digestão e absorção dos nutrientes durante o primeiro semestre de vida. É importante destacar que, para que a descida do leite aconteça satisfatoriamente, é fundamental que as mamas sejam estimuladas, ou seja, logo após o nascimento e daí em diante, o bebê deve ser colocado ao seio e incentivado a sugar. Quanto mais o bebê sugar, maior será a produção e ejeção do leite. Fisiologicamente, a sucção do bebê nos mamilos gera estímulos nervosos que atuam no cérebro, na região do hipotálamo, estimulando a glândula hipófise. Esta glândula produz/libera dois hormônios fundamentais para a lactação: a prolactina, responsável por ativar a produção do leite nas glândulas mamárias, e a ocitocina, responsável pela contração das estruturas mamárias onde o leite fica armazenado, permitindo a sua saída.

como as mamas produzem leite

2) Por que em algumas mulheres aparecem rachaduras nos seios?

A ocorrência das rachaduras está normalmente relacionada com a técnica incorreta de amamentação. Destaco dois aspectos importantes para evitar que este problema ocorra:

1 – A pega correta (ou abocanhadura correta): o bebê tem a boca bem aberta, com os lábios voltados pra fora e abocanha não só o mamilo, mas boa parte da aréola (parte mais escura que rodeia o mamilo), de forma que o mamilo (bico do seio) fica completamente no interior da boca do bebê, tocando o palato (céu da boca). Essa pega deve formar um vácuo, de forma que não ocorra entrada de ar durante a mamada O queixo do bebe encosta no seio e o nariz deve ficar desobstruído. O corpo do bebê fica em contato com o corpo da mãe (barriga com barriga) e a cabeça levemente elevada em relação ao corpo. Na pega correta, não se deve ouvir estalos durante a mamada, pois o som de estalos é provocado pela entrada de ar. A mãe deve ouvir o bebe ingerindo o leite.

2 – O esvaziamento das mamas: a mãe deve fazer a alternância das mamas de forma a garantir que ocorra o esvaziamento.

Se a pega não estiver sendo feita corretamente, a sucção pode machucar a pele dos mamilos, que é uma pele mais sensível. E o fato da mama ficar repleta de leite, sem ser adequadamente esvaziada, também faz com que a pele se estique demais, ficando mais suscetível às rachaduras. Observo que é normal o mamilo ficar mais sensível nos primeiros dias de amamentação, já que a pele sensível está sendo exposta a um novo tipo de atrito, mas isso deve ser tranquilo, cicatrizar logo e não voltar a ocorrer. Se as rachaduras persistem, possivelmente há algum problema com a técnica.

É recomendado expor a região ao sol, pois assim há ativação dos melanócitos (células da pele) e a pele desenvolve maior resistência. Também é importante manter as mamas sempre limpas e secas. Para as rachaduras, o próprio leite materno ajuda bastante na cicatrização. Assim, após as mamadas, deve-se passar um pouco do leite materno na região ferida. Pomadas e cremes devem ser usados somente sob orientação do pediatra e/ou obstetra.

amamentação correta

3) O bebê deve mamar nos dois seios todas as mamadas ou apenas em um?

Isso é bastante variável, depende do “ritmo” do binômio mãe-filho. O mais importante sobre a alternância das mamas é garantir que ambos os lados sejam estimulados igualmente e que ocorra o esvaziamento. Isso pode acontecer em uma mamada ou ao longo do dia, nas diversas mamadas, dependendo da quantidade de leite que a mãe produz e também do quanto que a criança mama. Na prática, deve funcionar assim: se a criança mama de um lado e fica satisfeita com a quantidade de leite disponível nesta mama, a mãe troca de lado apenas na próxima mamada. Mas pode acontecer da criança esvaziar uma mama e não ficar satisfeita. Neste caso, se oferece a outra mama na mesma mamada, e na próxima inicia-se por esta que foi ofertada por último. A mãe deve estar atenta se as duas mamas estão sendo esvaziadas ao longo do dia e também aos sinais de saciedade da criança.

O esvaziamento das mamas é fundamental para o sucesso da lactação, pois garante a manutenção da produção de leite, evita o ingurgitamento (vulgo leite empedrado) e as rachaduras, e superimportante, permite que o bebê receba o leite de regiões mais posteriores – uma porção de leite que fica armazenado em estruturas mais internas das mamas e que é mais nutritivo (mais gorduroso e mais calórico).

4) Por que não devemos oferecer outros alimentos como chás, suco ou mesmo água ao bebê até completar os 6 meses?

Porque até os 6 meses nenhum outro tipo de alimento ou líquido é mais importante do que o leite materno, e como nesta fase a capacidade gástrica é muito limitada, se oferecemos outros líquidos ao bebê, a capacidade digestiva é ocupada por substâncias menos nutritivas que o leite materno e a criança acaba mamando menos, recebendo menor quantidade de leite, e isso pode ter impacto negativo em seu ganho de peso e crescimento. Outro motivo é a imaturidade do trato gastrointestinal do bebê. Muitas estruturas deste sistema ainda estão se formando, de forma que o leite humano é o único alimento que o bebê está totalmente apto a receber. Qualquer outro alimento pode provocar irritações na mucosa (parede intestinal) e até mesmo levar a disfunções intestinais, provocando sintomas como gases, cólicas, diarreias, prejudicando a absorção de nutrientes. Além disso, ainda tem o risco destes alimentos / líquidos ou dos utensílios utilizados para administrá-los serem veículos de contaminação por micro-organismos que podem causar doenças. Vale a pena reforçar que a criança receberá toda a hidratação que necessita por meio do leite materno, não havendo necessidade de oferta de água ou outros líquidos. Já a mamãe deve ingerir líquidos em abundância para garantir a adequada produção de leite.

5) Algumas vezes as mamães tem problemas para amamentar e desistem da tarefa trocando o leite materno por formulas lácteas, isso traz algum prejuízo ao bebê?

A questão é que a criança e a mãe deixam de receber alguns benefícios exclusivos do aleitamento materno quando se recorre ao aleitamento artificial.

Costumo dizer que a maior parte dos nutrientes do leite materno podem ser “imitados” e colocados em uma fórmula láctea. Mas o leite humano tem muito mais do que nutrientes, e estes ainda não podem ser enlatados. Por exemplo, o leite materno contém uma série de substâncias que irão promover o desenvolvimento do sistema imunológico do bebê, como os anticorpos, ou imunoglobulinas, e enzimas, por isso criança em aleitamento materno adoece menos e está menos propensa a desenvolver alergias.

O aleitamento também favorece o desenvolvimento do sistema digestivo e formação da flora intestinal, pois é rico em prebióticos (componentes alimentares não digeríveis que afetam beneficamente o hospedeiro, por estimularem seletivamente a proliferação ou atividade de populações de bactérias desejáveis no intestino) e probióticos (micro-organismos vivos, administrados em quantidades adequadas, que conferem benefícios à saúde do indivíduo).

Ainda, há inúmeras evidências de que o aleitamento materno seja um fator de proteção contra a obesidade infantil, por ter uma ação de regulação no mecanismo de fome e saciedade do bebê.

Acredita-se que a amamentação seja um fortalecedor do vínculo afetivo entre mãe e filho pela relação e o contato que se estabelecem durante esta prática e também pela ação do hormônio ocitocina, que desencadeia sensações prazerosas na mãe e no filho. Dar de mamar ajuda a mãe a recuperar o peso após a gestação, pois a produção de leite aumenta incrivelmente o gasto calórico materno, podendo emagrecer cerca de 400g por semana. Além de contribuir para que o útero se contraia e retorne mais rápido ao tamanho normal. É também preventivo contra o câncer de mama.

O aleitamento materno tem inúmeras vantagens que não podem ser enlatadas, definitivamente!

peito melhor que mamadeira

6) Existem mamães que continuam a amamentar seus filhos mesmo depois dos 2 anos, isso traz prejuízos a criança?

A criança não necessita mais do leite materno após os dois anos de idade. Já é capaz de obter todos os nutrientes que precisa a partir da alimentação normal e o seu sistema digestivo já está suficientemente desenvolvido para receber uma boa variedade de alimentos. Já não é mais um lactente e, portanto, as suas necessidades nutricionais serão alcançadas mediante a ingestão de uma diversidade de alimentos, e desta maneira terá prejuízos nutricionais se as refeições estiverem sendo substituídas por leite materno.

Outro aspecto é que a criança nessa idade já tem a dentição formada e deve ser estimulada à alimentação sólida, pois a mastigação contribuirá também para o adequado desenvolvimento da fala.

Mas em geral, os prejuízos do desmame tardio são mais de ordem psicossocial. A criança em idade pré-escolar deve desenvolver características de autonomia, exploração do mundo exterior e sociabilização, de forma que a continuação do aleitamento materno pode levar à direção oposta disso, criando uma situação de extrema dependência entre mãe e filho.

Espero que esta “conversa” tenha ajudado no esclarecimento de algumas dúvidas.

Obs.: Este texto foi adaptado de uma publicação da mesma autora realizada na Revista N.Magazine.

Adaptação: Simone De Carvalho

REFERÊNCIAS

FRANÇAI, Giovanny Vinícius Araújo de; BRUNKENI, Gisela Soares; MERCEDES, Solanyara Maria da Silva Maria. Determinantes da amamentação no primeiro ano de vida em Cuiabá, Mato Grosso. Rev Saúde Pública, Cuiabá, n., p.711-718, 2007.

REA, MF. Os benefícios da amamentação para a saúde da mulher. J Pediatr (Rio J).;80(5 Supl):S142-S146, 2004

FONTE: http://blogcomciencia.com

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