A “manha” e o desenvolvimento cerebral da criança

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“Deixa que isso é manha!” Quantas vezes não ouvimos essa frase de pessoas referindo-se ao choro de bebês ou crianças pequenas? Em outras palavras, o que querem dizer é: “Não dê ouvidos ao seu filho. Ele não precisa de nada. Só está chorando para te manipular!”

Mas será que recém-nascidos e crianças pequenas são capazes de tal elaboração? Será que um bebê de, por exemplo, seis meses, é capaz de pensar algo como: “Vou chorar agora, assim minha mãe vai fazer o que eu quero!”?

Assim como os adultos, as crianças têm necessidades físicas e psicológicas. Assim, um bebê bem alimentado, com a fralda seca, sem cólicas e com o sono em dia pode não estar plenamente satisfeito. A única forma de comunicar essa insatisfação é o choro. Quando este é encarado como “manha”, queremos dizer que é sem importância, como se o desconforto de uma fralda molhada representasse mais que o sentimento de abandono num mundo totalmente estranho, como é o nosso aos olhos de quem aqui acaba de chegar.

É claro que um bebê não é capaz de elaborar um raciocínio como o do exemplo (“vou chorar agora, assim minha mãe vai fazer o que eu quero!”), porque, até mais ou menos os dois anos, ele ainda não tem linguagem, portanto, não pensa como os adultos simplesmente porque o nosso pensamento é composto por palavras. Além disso, ele também não é capaz de compreender relações de causa e efeito, ou seja, ainda não sabe que o seu choro traz a mãe para perto.

O pensamento das crianças de até dois anos de idade se dá de maneira intuitiva. Piaget chamou esse estágio de sensório-motor. Sem poder contar com palavras para designar experiências e, assim, recordar acontecimentos e idéias, as crianças ficam limitadas às situações imediatas, dessa forma, vêem e sentem o que está acontecendo, mas não têm instrumentos para categorizar o que assimilou. O que aprendem – e a forma como o fazem – permanecerá como uma experiência imediata, tão vivida como qualquer primeira experiência. Isso significa que até essa idade as crianças não têm capacidade de guardar na memória aquilo que aprenderam. É por isso que, muitas vezes, deixam os pais malucos, já que eles têm que repetir um milhão de vezes para não chegarem perto da tomada, não tomarem água do chuveiro, não pularem no sofá. Mesmo que a criança tenha tomado um choque ou levado uma palmada, ela não vai guardar tal experiência na memória. Assim, ao ver novamente a tomada e o sofá, vai ter a mesma vontade de fazer o que fez na primeira vez que os viu.

E o choro? Entendendo que a criança pequena não é capaz de pensar da forma “da última vez que eu chorei minha mãe fez o que eu quis, então vou chorar agora” e que ela tem necessidades psicológicas importantes porque está totalmente perdida num mundo desconhecido, concluímos que a sua ação não é manipulatória, mas sim instintiva. O bebê sente uma necessidade e por isso chora, grita ou reage. Não há um pensamento estratégico por trás dessas ações. Isso explica também porque não temos lembranças da nossa infância antes dos três anos, simplesmente porque os mecanismos de memória não estavam prontos com essa idade.

Assim, ao menosprezar a insatisfação do bebê chamando-a de “manha”, os adultos ficam insensíveis às necessidades tão básicas para ele quanto o leite na hora da fome. Essa criança que não é atendida em suas angústias acaba tendo mais motivos para se sentir insegura e manifestar sua insatisfação. Assim, ao atender o filho que chora “sem razão aparente”, a mãe não está estimulando o choro: está demonstrando que ela estará sempre ali, para toda e qualquer necessidade. Ele ficará mais seguro e chorará menos, não mais.

Entre dois e sete anos, passa-se para o estágio que Piaget chamou de pré-operatório. A partir do segundo aniversário, dá-se uma enorme evolução na linguagem, a título de exemplo, uma criança de dois anos compreende entre 200 e 300 palavras, enquanto uma de cinco compreende duas mil. Esse aumento do número de vocábulos é favorecido pela forte motivação dos pais, ou seja, quanto mais a criança for estimulada (canções, jogos, histórias , etc.), melhor desenvolverá a sua linguagem. Essa é a fase do faz de conta, da imaginação. A criança não faz uma clara distinção entre fantasia e realidade e aprende muito por experimentação. É muito interessante observar como ela brinca e como reproduz a realidade em que vive nessas brincadeiras, sempre misturando a fantasia com o imaginário.

Piaget considerou a irreversibilidade uma das características mais presentes no pensamento da criança pré-operatória. Durante uma experiência, ele perguntou para uma menina de quatro anos: “Você tem uma irmã?”. A criança respondeu: “Sim”. Piaget: “E a sua irmã tem uma irmã?”, ao que ouviu: “Não, ela não tem uma irmã. Eu sou a minha irmã”. Por meio das respostas dadas, Piaget percebeu a grande dificuldade que as crianças têm em compreender a reversibilidade das relações. Concluiu que elas não têm mobilidade suficiente para compreender que, quando uma determinada ação já está realizada, podemos voltar atrás. Assim, podemos dizer que as estruturas mentais nesse estágio são amplamente intuitivas, livres e altamente imaginativas.

Conforme a linguagem se desenvolve e as experiências se somam, a criança passa a ter a habilidade de guardar as informações por um tempo mais prolongado, mas ainda não é capaz de utilizá-las abstratamente. Ela consegue lembrar que determinadas ações que pratica provocam uma reação positiva nos pais, e outras, reações negativas, mas ainda não é capaz de abstrair essa memória para situações novas. Por isso, é muito importante que os adultos mantenham uma coerência, ou seja: o que não pode hoje, continua não podendo amanhã, caso contrário a criança ficará confusa. Com a coerência dos pais, ela vai adquirindo a capacidade, num processo contínuo, de formular as suas próprias hipóteses.

O estágio entre os sete e os 12 anos foi denominado por Piaget como o das operações concretas. Para ele, é nessa fase que se reorganiza verdadeiramente o pensamento. A criança já consegue efetuar operações corretamente, ou seja, é capaz de elaborar na sua mente fases para a solução de um problema, mas ainda precisa estar em contato com a realidade e, por isso, seu pensamento é descritivo-intuitivo e parte do particular para o geral. Ela já não tem dificuldade em distinguir o mundo real da fantasia, já interiorizou algumas regras sociais e morais e, por isso, as cumpre deliberadamente para se proteger. Começa a dar grande valor ao grupo de pares, por exemplo, passa a gostar de sair com os amigos, adquirindo valores, tais como a amizade, companheirismo, partilha, etc. Surgem os líderes. Portanto, é só a partir dessa idade que os métodos de educação baseados em castigo (no sentido de conseqüência para um ato considerado inadequado) ou incentivo (para as atitudes positivas) passam a fazer algum sentido, já que, antes disso, a criança não é capaz de compreender as relações de causa-efeito.

É por isso que toda e qualquer tentativa de ensinar por meio de métodos de punição-incentivo é inútil para uma criança antes dos sete anos. Isso quer dizer que uma de quatro não vai deixar de jogar xampu no chão durante o banho porque, na última vez que fez isso, sua mãe ficou brava e fez um escândalo. Então, se ela não quer que isso volte a acontecer, o melhor a fazer é tirar os frascos do alcance da criança, já que falar e punir não vão resolver o problema do dia seguinte.

Compreender isso diminui muito o estresse dos pais, que acham que estão errando na educação porque o filho não aprende, e tira do filho o peso de não estar correspondendo ao que os pais esperam dele, mas que ainda não é capaz de oferecer. Se uma criança de até sete anos não deixa de fazer algo porque será punida nem faz algo para receber um prêmio, muito menos age de propósito só para provocar a ira dos pais.

Educar uma criança até os sete anos pode, então, ser resumido numa única palavra: exemplo. Se ela, na fase inicial, aprende por meio da experiência prática e sensório-motora, o melhor que os pais têm a fazer é comportar-se como eles gostariam que a criança o fizesse. Assim, se gritam, batem, mentem, desobedecem às leis, comem mal, como podem esperar um comportamento diferente dos filhos, que aprendem por experiência e observação?

Com a proximidade da adolescência, a criança começa a desenvolver a capacidade de se colocar no ponto de vista do outro. É a fase da descentração cognitiva e social. O monólogo dá lugar ao diálogo interno. O pensamento é cada vez mais estruturado devido ao desenvolvimento da linguagem. A criança já tem mais capacidade para permanecer concentrada e interessada por mais tempo ao realizar determinada tarefa.

É somente na adolescência, estágio denominado por Piaget de operações formais, que a criança realiza raciocínios abstratos, não recorrendo ao contato com a realidade. Ela desenvolve a sua própria identidade, podendo ter problemas existenciais e dúvidas entre o certo e o errado. A criança manifesta outros interesses e ideais, que defende segundo os seus próprios valores. Ela passa a compreender o real significado de termos abstratos como justiça, lealdade ou ciúmes.

A maneira como o adolescente irá formular os seus valores está intimamente ligado, porém, às experiências e aos modelos que ele teve quando criança. É claro que existe um componente genético importante da personalidade e que nem tudo pode ser moldado por meio da educação. Como resumiu Freud, “a criança é o pai do adulto”, ou seja, as experiências vividas na infância determinam a formação e o caráter. Isso porque o conceito de certo e errado não nasce com o indivíduo – é aprendido. Para esse aprendizado dar certo, é preciso muita atenção e muito amor.

Texto de Renata K. Velloso, acadêmica de Medicina na Universidade de Campinas, do livro ‘Pediatria Radical’.

 

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