A Abnegação

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“Uma vez esquecidos os ditosos horários e implantada a lactância a demanda, a maior parte dos problemas com a lactância são devidos à má posição. Como é possível que existam tantos bebês mal colocados ao peito? Depois de ler uma larga e tediosa explicação precedente, um se vê tentado de dizer: “pois, porque é tão difícil que ninguém explica”. Mas não é tão difícil. Todos os mamíferos mamam sem que ninguém lhes explique a posição correta e assim o fizeram nossas antepassadas durante milhões de anos.

Eu estava preocupado. Demorei anos em compreender realmente qual é a posição correta, anos de ler livros, ver vídeos e escutar os expertos. Como o conseguiam, então, na cova da Altamira? (tempo das cavernas).

O mito da mãe abnegada também contribui a que muitos bebês mamem em má posição. Por que o bico do peito dói tanto? Um belisco no bico é muito mais doloroso que em qualquer outro ponto da pele. Talvez tenha que ser muito sensível para poder reagir aos estímulos e desencadear os reflexos da ocitocina e da prolactina? Não necessariamente. O que conhecemos como “tato” é em realidade vários sentidos distintos, com distintos receptores e distintos nervos. O bico do peito poderia ser tão sensível à pressão ou ao contato, mas pouco sensível à dor.

Penso que a extrema sensibilidade à dor serve para garantir que o bebê agarre bem ao peito. Por que davam o peito as mulheres das cavernas, por que dão peito os animais? Porque se recomenda o veterinário, porque ouviram que é muito nutritivo e protege contra as infecções? Está claro que não. O primeiro motivo que levam as mães animais e humanas a darem o peito é, simplesmente, para que o bebê se cale. O choro é um som muito desagradável, que impulsa a mãe a fazer algo para acalmar o bebê. Peito, braços, carícias, canções, seja o que seja, mas que se cale.

Que passava nos tempos da caverna quando um bebê mamava em má posição? O bebê chora, lhe dou peito. Me dói, lhe tiro o peito. Chora outra vez, coloco o peito novamente. Me dói novamente, tiro o peito outra vez…e assim até acertar com a posição correta: “anda, desta vez não dói! Pois que mame todo o que queira…” a dor é um aviso do nosso corpo que a mãe deve mudar de posição, assim, pode corrigir o problema antes que apareçam as fissuras, as mastites, os vômitos, as cólicas…

Mas, em tempos mais atuais, a lactância sofreu conotações morais. Uma “boa mãe” segue dando o peito, ainda que lhe doa. Uma boa mãe se sacrifica e cumpre com o seu dever. Uma “boa mãe” não escuta as mensagens do seu corpo e segue dando o peito em uma má posição. Até que saem as fissuras. E quando já não pode suportar a dor, a ansiedade e o esgotamento, quando se entrega e passe à mamadeira, os mesmo que lhe dizem: “não te preocupes, com os leites modernos se criam igual de bem”, a suas costas comentarão: “o que passa é que as mães de hoje não aguentam tanto”.

Em conclusão, durante milhões de anos não devia de haver quase problemas de posição. Depois de um parto natural, quando o bebê estava nos braços da mãe desde o primeiro segundo e não se movia dali em meses, sem chupetas nem mamadeiras e com abundantes oportunidades para observar a outras mães com seus filhos. Quase todos os bebês mamavam bem. E em caso de problema, a dor avisava à mãe para que a corrigisse de imediato. A natureza não podia prever que nossa sociedade chegaria a fazer todo o contrário.

E por que não idealizou a natureza um sistema mais simples? Se a ocitocina fosse um pouco mais efetiva, e todo o leite saísse a jato sem esforço para o bebê, este podia mamar ainda que estivesse mal colocado, e como não tinha que fazer fora. Tampouco havia dor ou fissuras. A ideia tentadora, mas não pode funcionar. Se o leite saísse sozinho, o bebê não tinha nenhum controle. Para que a quantidade e composição do leite se adaptem às necessidades do lactante, é necessário que este mame de forma ativa. Por isso, o leite não sai sozinho em nenhum mamífero, sempre tem que fazer um esforço. Por isso, as vacas, cabras e ovelhas teriam que lhes ordenhar, não basta colocar um balde debaixo e esperar.

Por certo, já que estávamos falando de abnegação materna, me permito fazer uma alegação contra o sacrifício. A palavra “sacrifício” tem várias definições e alguma delas não está mal: “ato de abnegação ou altruísmo inspirado por a veemência do carinho”, mas também pode ser: “ação a que um se sujeita com grande repugnância”, de modo que se prestam confusões.

Se sacrifica um alpinista para alcançar o cume? Sacrifica-se o que estuda concurso para notário ou pratica horas e horas o piano? Não estão fazendo algo que lhe repugna, estão fazendo o que desejam fazer. Eu não quero subir numa montanha nem ser notário, e por isso não o faço.

Se você quer levar seu filho nos braços ou lhe dar o peito, faça-o. Se você quer deixar de trabalhar por alguns meses ou alguns anos para cuidar do bebê, ou rechaçar uma magnífica oportunidade de trabalho no exterior para estar com sua família, faça-o. Mas só se você quer. Se não quer, não o faça. Dizer: “sacrifiquei minha carreira profissional para estar com meu filho” é tão absurdo como: “sacrifiquei a relação com meu filho por minha carreira.”. Não são sacrifícios, são escolhas. Viver é eleger, os dias só têm 24 horas, e o que faz uma coisa não pode fazer outra ao mesmo tempo. Eleja o que em cada momento te pareça melhor, e pronto. Quem faz o que quer não está renunciando, está conseguindo, não se sacrifica, triunfa.

A nuance é importante, porque quem faz um sacrifício, o faz, por definição, com grande repugnância. Não se considerada pagado, acredita que lhe devem algo. Cedo ou tarde você terá conflitos com os seus filhos. Em nesses momentos, quem acredita haver se sacrificado pensam: “parece mentira, depois de tudo que fiz por você”, ou “por sua culpa, eu não pude chegar a…” As palavras, uma vez pronunciadas, não se podem voltar atrás. “Em compensação, os que são conscientes de haver feito o que desejavam mais bem pensam: “que pena que depois de todos os anos de felicidade que você me deu, agora tenhamos um conflito” ou “graças a você, disfrutei do privilégio de ser pai!”.

DR. Carlos GONZÁLEZ, C. (2009). Comer, amar e mamar. Madrid:Temasdehoy, p.292-294.

FONTE: http://demaeparamae.pt

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